terça-feira, 23 de abril de 2013

Travessia - Cunha X Paraty - Longa distância e reflexão

Num breve relato, narrarei por cima, aquilo que chamamos de aventura misturado com aprendizado. Foi exatamente no dia 20 de abril, recente, que topei ir com o Grupo Rumo a Trilha, realizar a famosa travessia que liga a cidade de Cunha - SP à cidade de Paraty - RJ.
Nos encontramos na cidade de Guaratinguetá - SP, localizada a 168 km da capital paulista, às  09:00hs da manhã do sábado. Ao todo, éramos em nove pessoas predestinadas e cientes de que percorreríamos mais de 20 km andando de Cunha - SP ao litoral sul carioca. 
Então chegamos a simpática e acolhedora cidade de Cunha - SP, com aproximadamente 24 mil habitantes e famosa por ser a maior produtora de pinhão do estado de SP. Andamos pela cidade em busca de algo para comer e permitir que outras pessoas do grupo conhecessem aquela cidade.
Coincidentemente fomos pegos de surpresa ao assistir a pacata cidadezinha em festa, devido a festividade de seu aniversário de 155 anos, qual era comemorado pelos moradores nas ruas da cidade.
Daí então, contratamos condução que nos levassem-nos até o início de toda a travessia. Mas para isso, era preciso cumprir a missão de acampar até o dia seguinte no topo do cume do famoso Pico da Pedra da Macela, com distância de 1.840 metros de altitude e pouco mais de 2 km de extensão de subida íngreme.
Chegamos ao topo por de baixo de muita neblina e nos deparamos com um fantástico cenário escondido, porém, enrustido com os efeitos da natureza, com a sensação de que tivera acabado de cair uma chuva e molhado tudo por ali.
Sendo assim, para melhor nos esconder da umidade e neblina do local, resolvemos armar nossas barracas para guardar nossas mochilas cargueiras e nos esconder um pouco da neblina e do frio que fazia por lá, toda vez que turbilhões de ventos cortavam nossos rostos. 
Armei minha barraca, entrei nela para trocar de roupa e me agasalhar um pouco mais, quando me perguntei: O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI? Comecei a relembrar da série de convites que eu havia cancelado para estar ali, em que descartei conforto e fartura, para vivenciar momentos de incertezas e futuros arrependimentos.
Me dei conta de que a deprimência é alimentada sempre por sequências de pensamentos negativos e de auto-desconhecimento e após cochilar por aproximadamente 1 hora, saí daquela barraca, naquela altura, aquecida pela minha respiração, e pensei comigo: DEIXA EU SER FELIZ ASSIM!
Foi quando dei de cara com a visão panorâmica lá do alto, com a linda vista da cidade de Paraty - RJ. Na imagem parece perto, mas é que puxei o zoom no máximo para conseguir captar a cidade ao fundo pela claridade das luzes.
Fiz minha comida, conversei com o pessoal animado do grupo que também preparava o alimento de cada um deles, demos muitas risadas até tarde da noite e fomos todos dormir. Afinal, o outro dia praticamente começaríamos a travessia.
Quando meu relógio biológico despertou, por volta das 05:30hs, com muita coragem, resolvi colocar a cabeça pra fora da barraca e me deparei com essa imagem acima, assim, desse jeito.
Eu poderia ter tido um choque térmico, pois saí da barraca rápido e correndo e fui a beira do penhasco assistir aquele amanhecer maravilhoso.
Nesse momento, algumas pessoas do grupo poderiam até estarem acordadas, mas não imaginavam que o céu estaria daquele jeito do lado de fora das inúmeras barracas armadas uma ao lado da outra, com o preludio de um dia diferenciado.
Antes de chamar todos os colegas, fui dar as boas vindas a tudo aquilo que meus olhos estavam vendo. Fiquei por alguns instantes parado, olhando imóvel aquele cenário e comecei a chorar e pensar o quanto eu sou vazio. 
Foi um momento meu com Deus, onde de fato eu descobri o que eu estava fazendo ali. Parecia mágica, coisa de filme de drama misturado com romance. Parecia que muito tempo havia se passado, traduzido em repentinos segundos.
Me veio à mente até aquela música do grupo Legião Urbana - Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto, onde diz que, o "Sol nasce todos só não sabe quem não quer".
Pra ser sincero, eu trocaria o nome da música para: O SOL NASCE PRA TODOS, SÓ NÃO SABE QUEM NÃO SABE.
A lona molhada da minha barraca era resultado do meu afego interno. Eu estava muito alegre e pouco quis captar fotos. Usei daquele momento para realmente refletir, ainda que em poucos instantes, um pouco mais sobre o que eu já havia deixado para trás.
Todos já haviam saído de suas barracas, mas eu não consigo lembrar desses momentos, pois parecia que eu estava no céu. Sem exageros, cheguei até a pensar que eu tivesse morrido e ido diretamente ao Paraíso. Mas me dei conta logo, de que a natureza e seus mistérios, nos proporcionam sensações indescritíveis e vi que eu não estava ali por acaso.
Eu pude agradecer a Deus por essa rica sintonia entre eu e Ele, assim, dessa forma. Lá eu senti de verdade, como em diferentes formas e ocasiões da vida cotidiana, um... ALVARO EU TE AMO!
Celebrei com o pessoal do grupo, imaginando que cada um tem seus motivos para estar ali, cada qual com sua crença e credo, cada um com a sua maneira de enxergar a vida. Mas um momento de alegria para todos. Era nítido a expressão que cada um tinha ao se referir ao encanto e beleza de tudo a nossa volta.
Então, desarmamos todo o acampamento e descemos do Pico da Pedra da Macela para dar seguimento a travessia. Coisa que, dali para frente, qualquer sofrimento era recompensado pelo que eu havia vivenciado lá em cima da pedra.
Fui seguindo assim, pensando em cada coisa que eu deveria mudar em mim. Presenciando a beleza da natureza, misturado com as minhas limitações e dificuldades. Cada coisa que eu via, me fazia enxergar qualidades ruins que eu preciso mudar.
Essa pedra no meio do nada, me fez ver o quanto eu sou duro, orgulhoso e auto-suficiente.
Essa casinha, também em meio ao nada, me fez enxergar o quanto eu sou vaidoso, apegado a coisas materiais e mesquinho
A água corrente desse manancial me fez pensar o quanto eu tenho de fartura a minha volta e não dou valor a nada!
O brilho dessa bromélia me fez compreender o valor vão que dou a falsas belezas
E o que dizer então desse caminho de pedras (caminho do ouro)? Bem... Preciso rever com mais precisão e discernimento os lugares por onde piso. Lugares insuficientemente sólidos que rotineiramente entro e saio.
Cheguei a percorrer longas horas por caminhos dos quais eu não sabia o que tinha logo a frente. A incerteza não existia, mas sim, a confiança de que eu estava indo pelo caminho certo indicado. Me fez pensar o quanto falta confiança em mim e nas pessoas a minha volta.
Nessa parada para me refrescar na cachoeira, pude chegar a um ponto bem liso e perigoso da corredeira. Me permitiu enxergar o quanto sou medroso e desconhecedor dos meus limites. Eu poderia desafiar mais, acreditar mais e me apropriar mais de ensinamentos úteis da vida comum.
Mais adiante, chegando logo ao final da trilha, pude observar nesse riacho de água cristalina uma coisa interessante, joguei um galho pequeno de planta mais acima e a correnteza o despachou na caída da pequena cachoeira, me fazendo relembrar, que algumas coisas na vida passam e não voltam mais. 
Ao desembocar numa estrada de terra logo ao final da trilha, tivemos a informação através do líder do grupo, de que não teríamos condução a partir dali para ir até a estrada onde supostamente teria a condução para o Centro de Paraty. Então tivemos que caminhar mais 15 Km por essa estrada de terra. E Adivinhem! Esse tronco de árvore me fez enxergar os empecilhos que temos na estrada da vida, dos quais, necessariamente, eu preciso de alguma forma passar para continuar seguindo a diante.
Pensei que o momento de reflexão já tivesse passado e tivesse terminado minha auto recapitulação da vida, porém, fui mais uma vez pego de surpresa. Passei por esse tradicional alambique de Cachaça Paratiana (Prata). Isso bastou! Sequer precisei de figuração para compreender o que eu precisava saber. Minha saúde X meus vícios. Foi uma flechada certeira! Visto que no local havia degustação, segundo uma placa ali daquele local.
E assim terminou a trilha, numa ponte que liga tudo que andei até ali à grande civilização, findando em um imenso rio, tido por mim como: O RIO DA VIDA.
Fomos todos bem recebido no centro de Paraty, numa hospedaria com o nome de "Casa do Rio", onde tinha um agradável som, redes e balanças espelhados por um jardim por dentre os leitos e pessoas sorrindo ao receber o grupo todo sujo de terra, cansado e com dores pelo corpo. Me fez refletir sobre os convites que recebo para ir em determinados lugares
Dentro da hospedaria, havia uma espécie de museu com várias coisas relacionadas a cidade de Paraty. Entre os mais diversos itens expostos, me chamou a atenção essa imagem, possivelmente oriunda do Krishna, que me fez ficar por longo tempo observando os detalhes do belíssimo acabamento artístico. Nessa hora pensei comigo... Preciso rever meus excessos de idolatrias das coisas cotidianas. 
Após o banho, o grupo ainda que exausto, saiu para comer algo e paramos num desses açaís, onde vi o colorido das frutas, junto ao desejo de todos em se alimentar. Pude ainda repensar o quanto reclamo de barriga cheia. Tenho o que comer, sempre tive! E por inúmeras vezes reclamo do pouco que tenho, que na verdade é muito. 
Era hora de partir, colocar em atividade os aprendizados refletidos.
Eu poderia ter colocado essa foto na ordem dos fatos nesse relato da travessia, mas deixei pro final. Observem! Essa é minha barraca. Armei longe dos colegas do grupo. Eu não sabia o que tinha por de trás dessas nuvens, não havia observado que não existia folhas nessas árvores que estavam vivas. Acabei não conseguindo dormir.
Sem que eu reclamasse para os que lá estavam, das condições do relevo inclinado onde armei a barraca, ouvi de um determinado membro do grupo, a solícita ideia de remoção da barraca no meio da noite e no escuro.
Há algum tempo atrás eu negaria, pois meu orgulho não permitia expor ou aceitar algo de errado que eu tivesse feito. Então todos foram até lá junto comigo e levantaram a barraca com tudo dentro e a conduziram junta de todas elas.
Então... Por que esperar, se podemos começar tudo de novo agora mesmo?